terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Buchholz

Fui hoje um dos que aproveitaram a liquidação de stock da falida livraria Buchholz. Ia a caminho sentindo-me um abutre, jubilante pela oportunidade de arrancar os restos de carne que conseguisse. Cheguei uns vinte minutos antes da abertura. À porta estavam uma dezena de pessoas, reconheci algumas: alfarrabistas. Isto há abutres e abutres, estes banqueteiam-se regularmente com bibliotecas deixadas nas mãos de herdeiros. Já livrarias falidas são iguaria mais rara, embora, pelo que lhes ouvi comentar, esta foi-lhes algo sensaborona (é por demais sabido que alfarrabistas e taxistas nunca estão satisfeitos).

Gostei de viver aquele frenesim. Gente adulta e, normalmente, civilizada numa corrida ao ouro sem quartel, alarvemente percorrendo as estantes: à porta, uma mulher comentava a táctica de um casal que, segundo ela, estava a usar os filhos pequenos para passar à frente dos outros; um homem com uma pilha de livros recolhidos, pousados numa prateleira, instintivamente abraçou-os quando estendi a mão para pegar noutro que lhes estava próximo; olhava-se para o montinho que o vizinho tinha conseguido juntar — maldito! — como se olha de esguelha para a pila do tipo no urinol ao lado: com um misto de curiosidade, inveja (se for o caso) e repulsa. No fim, uma fila para pagar que, pelo tempo que se levava a chegar à caixa, mais parecia que tínhamos ido agradecer à santa. Doíam-me os pés que se fartava quando saí de lá, um preço justo.