quarta-feira, 30 de abril de 2008

Natália Correia

Há quem faça rabiscos nas margens das folhas. Natália Correia entretinha-se, enquanto deputada, a versejar nos momentos de maior tédio.



NUM DEBATE QUE SE ARRASTOU ATÉ ALTAS HORAS DA MANHÃ


Um tribuno pintado expõe em cima
Em tons róseos, azuis, cinzas e mates
(aqui não sei como encontrar a rima)
Desta casa, o delírio dos orates.

São cinco horas da manhã e arruina-
-se a Assembleia em sublimes disparates.
O diploma é supremo e subestima
A fome, a sede, o sono e até enfartes.

Musas! Como acabar este soneto?
Em sonito, talvez, que isto é brometo
E a deputada comuna, que sanfona!

Da oposição desertam as bancadas
Pelo sono vencidas, derrotadas.
Ganha a Aliança, em ser chata, a maratona.


in O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II, Inéditos (1979-1991)




NESTA LUSA FARRONCA SEM VINTÉM


Nesta lusa farronca sem vintém,
Neste muda que muda sem mudança,
Venha o que venha, há-de lixar-se quem
Do salsifré tiver a governança.

Quis o Caldas por Freitas dar Barbosa,
Mas de Lucas o verbo metafórico
Adriano abençoa, e a raposa
Tem nas direitas direito mais histórico.

O PSD chorando o pai extinto
No Choupal crê achar líder de estalo;
Afinal só trocou pinto por pinto
E pintainho não dá cantar de galo.

Para São Bento, o Mário triunfal
Lá em Paris já encomenda os fraques;
Perde Zenha, Constâncio, etcétera e tal
Mas ganha Acácio, Simão e outros craques.

Vitalício o Cunhal manda o Vital
Das verduras purgar as loucas culpas;
Que artes de moço tão constitucional
Para afastá-lo, são boas desculpas.

Em conclusão: onde o maior partido
É o do ócio que causa inveja à lesma,
Ganhe quem ganhe, só muda de vestido
O génio de deixar tudo na mesma.


in O Bisnau, nº2 (1983, com o pseudónimo "Eufrásio Cuco")




"O ACTO SEXUAL É PARA FAZER FILHOS" — DISSE ELE


Já que o coito — diz Morgado —
Tem como fim cristalino,
Preciso e imaculado
Fazer menina ou menino;
E cada vez que o varão
Sexual petisco manduca,
Temos na procriação
Prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
Lógica é a conclusão
De que o viril instrumento
Só usou — parca ração! —
Uma vez. E se a função
Faz o orgão — diz o ditado —
Consumada essa excepção
Ficou capado o Morgado.


in Diário de Lisboa (05.04.1982)



"Tenho ainda por indicado esclarecer um equívoco em que uma dessas sátiras me envolveu. Foi dela alvo o deputado João Morgado [CDS], num repente satírico em versos que perdi, tendo de recorrer à sua divulgação pelo Diário de Lisboa para aqui os publicar. Ora, a verdade é que, estando longe de mim a ideia de dar publicidade a qualquer das sátiras em que eu me aliviava de alguns pesadumes parlamentares, um deputado da mesma bancada, deitando o olho ao escrito em que eu desabafava o meu assombro pelo paroquial zelo procriativo do deputado João Morgado, pediu-me para o ler, o que fez, após o que quis ficar com uma fotocópia. Qual não foi o meu espanto, umas horas depois, quando numa votação nominal, ao soar o nome de Morgado no hemiciclo, se ouviu um estrondo de gargalhadas. Vi logo que o deputado guloso da fotocópia me enganara produzindo o milagre faceto da multiplicação da sátira que abundantemente distribuíra por deputados e jornalistas. Manifestei-lhe o meu desagrado mas, nada a fazer. Logo no dia seguinte, o Diário de Lisboa estampava a zombaria em versos que popularizou Morgado. Da cruel divulgação que originou essa popularidade, lavo as minhas mãos."


in O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II (1993)