domingo, 11 de março de 2007

Intolerância

Antecipo tempos difíceis. O estado português caminha para a proibição do consumo de tabaco em restaurantes e outros estabelecimentos públicos, naquilo que, muito justamente, Francisco José Viegas referiu como sendo mais um ataque aos cidadãos ("Querem estragar-lhes a vida, aos poucos."). Eu não sou fumador, mas arrepia-me o caminho que as coisas tomam. Hoje é o tabaco. Amanhã, quem sabe? Confesso, não é completamente inocente esta minha diatribe. Também eu temo pelos meus pequenos e grandes prazeres, obviamente em risco. E de um em particular: gosto de me peidar, lenta e relaxadamente, sobretudo depois de um bom repasto, sozinho ou na companhia de amigos. Julgo não ser necessário descrever extensivamente a satisfação que isso me traz, suponho que não seja demasiado diferente da dos demais. Neste particular estão os fumadores em desvantagem (ser-lhes-á mais difícil de fazer saber aos não iniciados o que significa abdicar de tal hábito). Por outro lado, e se descontarmos uma irrisória contribuição para o aquecimento global, não se pode dizer que os gases intestinais humanos tenham algum efeito nocivo sobre a saúde ou ambiente. Não ignoro o incómodo provocado nalgumas pessoas mais sensíveis (também eu não suporto o cheiro a fritos: há que respeitar as diferenças), mas não vejo como tolerável qualquer intromissão do estado nesta e noutras matérias. Porque não confiar no bom-senso e civilidade dos portugueses? Quando me pedem para que pare de me peidar, faço-o imediatamente. É assim tão difícil, pedir? Porquê a necessidade de legislar? Será que, se houvessem alguns milhões de portugueses com o mesmo hábito que eu, me encontraria na mesma situação dos meus amigos fumadores: como alguém perseguido e estigmatizado? Isto sim, é assustador!
Há que acabar com a caça às bruxas.